Revolução global das CBDC: quais países e quais estratégias estão a definir o futuro do dinheiro digital

Os bancos centrais de todo o mundo estão a implementar ativamente moedas digitais de bancos centrais — CBDC. Isto não é apenas um experimento tecnológico: trata-se de repensar a estrutura do sistema monetário de cada país. Atualmente, mais de 135 países estão a trabalhar nos seus projetos de CBDC — alguns na fase de investigação, outros já lançaram pilotos e alguns estão a aproximar-se de um lançamento em grande escala. Cada país escolhe o seu próprio caminho, refletindo as suas prioridades políticas e capacidades técnicas.

Duas filosofias: centralização versus privacidade

A corrida global pelas CBDC desenvolve-se em torno de uma tensão central — o equilíbrio entre controlo e liberdade. Por um lado, os Estados precisam de monitorizar e prevenir operações ilegais; por outro, os cidadãos exigem a preservação da privacidade. Esta dilema define toda a gama de abordagens que diferentes países adotam na criação das suas moedas digitais.

EUA: caminho constitucional e longas discussões

Os Estados Unidos continuam a ser um país de investigação, não de pioneirismo. O Congresso está a analisar a Lei de Dinheiro Eletrónico (ECASH), que propõe criar um dólar digital com máxima proteção da privacidade — uma moeda que funcione como dinheiro em espécie no ambiente digital.

A abordagem americana assenta em três pilares: proteção da confidencialidade dos cidadãos, prevenção de crimes financeiros e manutenção do dólar como moeda de reserva mundial. O Federal Reserve, o Tesouro e os legisladores movem-se mais lentamente do que os seus colegas noutros países, pois cada decisão deve estar em conformidade com a Constituição americana e as expectativas da sociedade. Isto significa que a CBDC americana ainda está na fase de projeto, sem anúncio oficial de lançamento.

China: liderança através de escala e controlo

Situação completamente diferente na China. O yuan digital (e-CNY) já está em funcionamento na realidade. O Banco Popular da China lançou um programa piloto em 2020, que desde então cresceu exponencialmente. Em 2023, mais de 260 milhões de pessoas tinham acesso ao e-CNY. As pessoas usam-no para pagar transporte, compras online e até receber salários. Este é o maior projeto piloto de CBDC do mundo.

No entanto, o modelo chinês difere fundamentalmente das abordagens ocidentais. O sistema é totalmente centralizado, permitindo ao Estado monitorizar cada transação em tempo real, controlar fluxos de dinheiro e, se necessário, bloquear pagamentos. Oficialmente, isto é justificado na luta contra fraudes e corrupção, mas os críticos apontam que este nível de centralização confere ao governo um controlo sem precedentes sobre a vida financeira dos cidadãos, minimizando a privacidade.

União Europeia: privacidade como princípio fundamental

O Banco Central Europeu adotou uma estratégia completamente oposta. O euro digital, que o BCE está a desenvolver intensamente, pretende ser uma moeda onde a privacidade não é um compromisso, mas um princípio fundamental.

Em 2023, o BCE concluiu a fase de investigação e passou ao desenvolvimento prático. O euro digital funcionará tanto online como offline, incluirá mecanismos de privacidade integrados e estará disponível em todos os países da UE. Os bancos e os serviços de pagamento poderão recolher apenas o mínimo de informações necessárias para cumprir as regras contra lavagem de dinheiro. Os utilizadores terão controlo sobre o nível de privacidade das suas transações. Esta abordagem está alinhada com a filosofia europeia de proteção dos direitos dos cidadãos, consagrada no GDPR e outras regulamentações.

Israel: desenvolvimento cauteloso

O Banco de Israel apresentou, em 2025, um projeto detalhado do shekel digital, com funções inovadoras: contratos inteligentes que permitem que fluxos de dinheiro sigam regras predefinidas; funcionalidade offline para pagamentos sem internet; e transferências internas e internacionais aceleradas.

Israel também lançou o Digital Shekel Challenge, convidando empresas tecnológicas a testar criativamente as possibilidades da moeda digital. No entanto, apesar da prontidão do projeto, Israel adotou uma postura de observador paciente — primeiro quer ver como evoluem os acontecimentos na União Europeia, antes de decidir pelo lançamento completo. Isto reflete uma estratégia de cautela: estar preparado, mas não ser o primeiro.

Pioneiros: países pequenos mostram o caminho

Enquanto as grandes economias ainda debatem, alguns países menores já passaram o ponto sem retorno. Bahamas lançou o Sand Dollar, Nigéria o eNaira, Jamaica o Jam-Dex. Estes projetos demonstraram a viabilidade técnica da implementação de CBDC, mas também revelaram obstáculos sérios: os cidadãos continuam a confiar no dinheiro em espécie, os comerciantes relutam em adotar pagamentos digitais e, em algumas regiões, a cobertura de internet ainda é insuficiente. Ainda assim, a experiência destes pioneiros serve como um campo de testes valioso para outros países.

Como os países entram na ecossistema CBDC: níveis de envolvimento

O processo global de implementação de CBDC não é homogéneo. Os países participam em diferentes níveis de envolvimento. Alguns estão na fase de investigação teórica e publicam relatórios. Outros realizam pilotos limitados em uma ou várias cidades. Outros, como a China, escalaram programas a nível nacional. E há países, como a UE, que estão próximos de passar do teste à implementação real. Cada nível exige competências, investimentos e obstáculos específicos.

Principais desafios para todos os países e sistemas CBDC

Apesar das diferenças de abordagem, todos enfrentam problemas comuns. A cibersegurança continua a ser uma questão crítica: uma falha no sistema pode paralisar toda a infraestrutura financeira nacional. As falhas técnicas requerem sistemas de reserva e procedimentos de transição. E, talvez o maior desafio, seja a confiança massiva. As pessoas precisam de querer usar a moeda digital estatal, o que exige educação, conveniência e sensação de segurança.

Segundo o Fundo Monetário Internacional, as CBDC poderiam reduzir os custos de transferências de dinheiro em 30-40%, aumentar a transparência dos gastos públicos e acelerar os pagamentos governamentais. Mas a realização destes potenciais depende da fiabilidade técnica e da aceitação pública.

Confronto: carteiras privadas e alternativas descentralizadas

Paralelamente ao desenvolvimento das CBDC estatais, cresce a procura pela sua oposição. Carteiras de criptomoedas sem custódia e bolsas descentralizadas atraem utilizadores que temem a supervisão excessiva do Estado, mesmo que esta seja feita através da moeda digital estatal. Carteiras sem KYC permitem operações anónimas, sem revelar a identidade. Isto cria uma dinâmica interessante: quanto mais os Estados implementam CBDC controladas, maior é a procura por alternativas não controladas.

A verdade em movimento: não é velocidade, mas confiança

A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, afirmou em 2025 que o euro digital pode garantir um nível socialmente ótimo de proteção de dados e permitir aos cidadãos realizar transações digitais com os benefícios de privacidade a que estão habituados com o dinheiro em espécie.

As palavras dela destacam a essência do que está a acontecer. Os países não estão apenas a correr atrás da inovação tecnológica. Estão a repensar como o sistema financeiro pode funcionar na era pós-dinheiro em espécie, sem perder valores fundamentais. O que funciona na China, com total centralização, não funcionará na Europa ou nos EUA. O que protege a privacidade na UE pode ser incompreendido pelos utilizadores israelitas.

O futuro das CBDC será definido não pelas possibilidades técnicas nem pelas ambições dos Estados — mas por quão bem cada país consegue criar um sistema que reflita os valores e as expectativas dos seus cidadãos. A confiança, no final, não se constrói com velocidade de inovação. Constrói-se com compreensão, transparência e respeito por como as pessoas querem viver e negociar.

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