Uma década depois: Como as 10 maiores empresas que fizeram IPO em 2015 se saíram

Quando 2015 chegou ao fim, 152 empresas tinham conseguido levantar 25,2 mil milhões de dólares através de ofertas públicas iniciais — uma forte diminuição em relação às 244 IPOs de 2014, que arrecadaram 74,4 mil milhões de dólares. Entre elas estavam alguns dos estreios mais aguardados do mercado nesse ano. Já passaram dez anos desde que essas empresas abriram capital, oferecendo uma visão interessante do que realmente acontece com as empresas recém-listadas ao longo do tempo. Aviso de spoiler: os resultados raramente correspondem às expectativas otimistas dos investidores no primeiro dia.

A sabedoria convencional sobre as empresas que fizeram IPO em 2015 revelou-se acertada em muitos casos. Apesar de alguns rallys iniciais impulsionados pelo entusiasmo do mercado, a maioria enfrentou dificuldades no primeiro ano. Períodos de bloqueio que impediam insiders de vender por 90 a 180 dias geralmente levavam a quedas acentuadas assim que as restrições eram levantadas. A supervalorização na oferta inicial — prática comum que favorece investidores institucionais em detrimento de investidores de retalho — acrescentava mais obstáculos. A lição ficou ainda mais relevante: paciência supera entusiasmo no jogo do IPO.

O Ano Turbulento do Setor de Energia: EQT GP Holdings

A EQT GP Holdings começou 2015 como uma promessa no setor energético. A empresa, que atuava como parceira geral da extensa rede de oleodutos da EQT Midstream Partners, abriu capital em maio de 2015 a 27 dólares por ação, levantando 621 milhões de dólares. No entanto, o que veio a seguir contou uma história diferente. Os preços do gás natural despencaram devido à demanda fraca, e o breve rally causado pelo vórtice polar no Nordeste não conseguiu compensar a fraqueza geral do mercado. No final daquele primeiro ano, as ações caíram 13%, prenunciando uma década de volatilidade para empresas ligadas ao setor de energia.

A Vantagem dos Dados: TransUnion e seu Desempenho Superior

Nem todas as empresas que fizeram IPO em 2015 tropeçaram logo de início. A TransUnion, empresa de relatórios de crédito, quebrou a tendência. Listada em junho a 22,50 dólares por ação e levantando 664,8 milhões de dólares, a companhia tinha uma vantagem estrutural: acesso proprietário a arquivos de mais de 1 bilhão de consumidores globalmente. Essa barreira de dados, combinada com receitas recorrentes e requisitos mínimos de capital, permitiu que suas ações subissem 39% no primeiro ano — um contraste marcante com a maioria dos pares. O modelo da TransUnion mostrou-se resistente ao longo da década seguinte.

O Desastre das Energias Renováveis: TerraForm Global

Quando as empresas de energia renovável fizeram IPO em 2015, o sentimento dos investidores parecia favorável. A TerraForm Global levantou 675 milhões de dólares em julho, a 15 dólares por ação. No entanto, a controladora da empresa era a SunEdison — nome que viria a se tornar sinônimo de fracasso espetacular. Quando a SunEdison entrou com pedido de falência logo após a estreia da TerraForm, a confiança evaporou. Para piorar, a subsidiária deixou de apresentar relatórios financeiros por longos períodos, deixando os acionistas no escuro. No final do ano, a TerraForm havia perdido mais de 75% do seu valor, tornando-se um dos piores resultados de IPO da época.

O Segmento de Pet Food com Resiliência: Blue Buffalo

No mesmo mês em que a TerraForm Global entrou em colapso, a Blue Buffalo Pet Products — fabricante de alimentos premium para animais de estimação — foi lançada a 20 dólares por ação, levantando 676,6 milhões de dólares. A empresa se beneficiou de uma forte tendência de consumo: a valorização de produtos premium para pets, à medida que os animais passaram a ser tratados como membros da família. As ações subiram quase 24% no primeiro ano. Embora o segmento de produtos premium para pets tenha enfrentado obstáculos nos anos seguintes, a oferta pública inicial da Blue Buffalo mostrou que bens de consumo com tendências favoráveis podem superar concorrentes ligados a commodities.

A Decepção dos Wearables: Queda Surpreendente da Fitbit

A Fitbit exemplificou como até líderes de mercado podem fracassar após abrir capital. A inovadora em dispositivos vestíveis foi lançada em junho de 2015 a 20 dólares por ação, arrecadando 731,5 milhões de dólares. Inicialmente, o sentimento era de euforia — a tendência de wearables parecia imparável. Mas o mercado mudou mais rápido do que o esperado. O Apple Watch, lançado no mesmo mês, cannibalizou grande parte da demanda por rastreadores de fitness de uso único. Em um ano, as ações da Fitbit perderam 63% do seu valor. Ao longo da década seguinte, a concorrência se intensificou ainda mais, levando à aquisição da empresa pelo Google em 2021.

Distribuição Química em Ciclos: A Volatilidade da Univar

A Univar, distribuidora de produtos químicos industriais e especiais, abriu capital em junho de 2015 a 22 dólares por ação, levantando 770 milhões de dólares. O desempenho no primeiro ano foi instável — começou forte, mas perdeu ganhos à medida que a fraqueza do setor de petróleo e gás reduziu a demanda dos clientes. Contudo, as ações se estabilizaram e, ao final do primeiro ano, tinham ganho 19%. A trajetória da empresa mostrou-se mais resiliente nos anos seguintes, com aquisições estratégicas e recuperação do setor impulsionando ganhos superiores a 50% em 2016.

Marcas de Luxo Mantêm sua Vantagem: Ferrari em Ascensão Constante

Quando a Ferrari abriu capital em outubro de 2015, a 52 dólares por ação, levantando 893,1 milhões de dólares, o entusiasmo pelo setor de bens de luxo estava contido. As ações caíram inicialmente, mas o posicionamento premium da marca e a produção limitada criaram valor de escassez. Ao completar um ano, as ações estavam 12% acima do preço de IPO. Na década seguinte, a Ferrari consolidou sua posição como ícone de luxo, com edições limitadas e apelo de herança que a protegeram de ciclos de mercado — uma lição do poder da marca.

MLPs de Oleodutos em Situação Delicada: Columbia Pipeline Partners e Tallgrass Energy GP

Duas parcerias de limitação de responsabilidade (MLPs) dominaram o calendário de IPOs de infraestrutura de 2015. A Columbia Pipeline Partners estreou em fevereiro a 23 dólares por ação, levantando mais de 1 bilhão de dólares. Em poucos meses, a TransCanada, controladora, iniciou uma aquisição, primeiro a 15,75 dólares, depois elevando a oferta para 17 dólares. Ainda assim, isso representou um desconto de 26% em relação ao preço de IPO ao fechar o negócio — um alerta sobre riscos de fusões reversas.

A Tallgrass Energy GP, outra entidade de oleodutos, abriu capital em maio de 2015, levantando 1,2 bilhão de dólares numa oferta que valorizava a empresa para gerar retornos por meio de sua participação na Tallgrass Energy Partners. A fraqueza do setor de petróleo e gás prejudicou o negócio, mas a parceria acabou se estabilizando. Após uma recuperação inicial em 2016, as ações ficaram estagnadas, encerrando o primeiro ano com queda de 11% — um lembrete de que contratos de oleodutos não podem proteger totalmente os investidores da exposição às commodities.

Processamento de Pagamentos: O Início Desafiador da First Data

O maior IPO do ano foi da First Data, processadora de pagamentos eletrônicos, que levantou 2,6 bilhões de dólares em outubro de 2015. Apesar de processar mais de 2.300 transações por segundo e facilitar 1,9 trilhão de dólares em pagamentos anuais, o desempenho financeiro da empresa ficou aquém das expectativas dos investidores. O preço de IPO de 16 dólares ficou abaixo da faixa prevista de 18 a 20 dólares, e as ações mal se moveram no dia de estreia. Embora estivesse no caminho de voltar à lucratividade após anos de prejuízo, as ações caíram 10% em relação ao preço de IPO no primeiro ano — refletindo ceticismo dos investidores quanto à execução da gestão.

Lições Gerais: Por que Investir em IPOs de 2015 Foi Tão Difícil

Das dez empresas que fizeram IPO em 2015, apenas quatro terminaram o primeiro ano em território positivo — e mesmo esses ganhos foram muitas vezes temporários. A experiência reforçou um princípio atemporal: empresas recém-listadas raramente oferecem os melhores momentos de entrada para investidores de retalho. Alocações institucionais geralmente capturam o potencial de valorização antes que os investidores de mercado aberto tenham chance justa. Expirações de lock-up acionam vendas previsíveis, a supervalorização impede que o downside seja precificado, e os ciclos de mercado criam obstáculos independentes dos fundamentos da empresa.

Investidores que aprenderam a esperar de 12 a 24 meses antes de avaliar IPOs frequentemente encontraram melhores oportunidades. Aqueles que resistem ao canto da sereia do entusiasmo do primeiro dia e adotam uma abordagem paciente e de longo prazo tendem a obter resultados superiores. A década que se seguiu a 2015 só reforçou essa lição: as melhores empresas acabam por mostrar seu valor, mas raramente no seu primeiro dia de negociação.

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