Entender o preço de uma ação: guia prático para calcular o seu valor de mercado

Quando nos adentramos no universo bolsista, um dos primeiros conceitos com que nos deparamos é o preço de uma ação. No entanto, muitos investidores não compreendem realmente o que há por trás dessa cifra que pisca na tela do seu corretor. O valor de mercado não é um número mágico, mas o resultado de um mecanismo complexo onde confluem ofertantes e demandantes em busca de equilíbrio.

A base fundamental: oferta, procura e consenso

Para entender como se calcula o preço de uma ação, primeiro devemos remontar a um princípio económico elementar. Imaginemos uma sociedade primitiva onde prevalece o escambo: tantos sacos de trigo por uma vaca, certo número de ferramentas por um tecido. Este sistema funciona inicialmente, mas gera caos quando os interesses não coincidem ou quando os volumes de troca variam.

A solução chegou com a moeda, que permitiu atribuir um valor unitário a cada bem. Mas foi a Lei da Oferta e Procura que aperfeiçoou esse mecanismo, estabelecendo que o preço de qualquer ativo se determina pelo que os compradores estão dispostos a pagar face ao que os vendedores aceitam receber.

No contexto bolsista, o preço de uma ação funciona exatamente assim. Não existe uma fórmula secreta nem uma entidade que o estabeleça de forma arbitrária. É o próprio mercado, através de milhões de transações diárias, quem fixa o consenso. Esse consenso é o que denominamos valor de mercado.

Fórmula prática: como calcular o preço de uma ação

Embora seja verdade que o preço de uma ação aparece automaticamente nas plataformas de trading, compreender a sua origem é fundamental. A relação entre capitalização de mercado e preço unitário é direta:

Capitalização de Mercado = Preço da Ação × Número Total de Ações

Despejando a fórmula para obter o preço individual:

Preço de uma Ação = Capitalização de Mercado ÷ Número Total de Ações

Esta operação simples revela uma verdade importante: o preço de uma ação não existe de forma isolada, mas faz parte de um ecossistema onde o valor total da empresa se distribui entre todos os seus títulos em circulação.

Bid, Ask e Spread: a realidade do cálculo

Quando operamos em mercados reais, descobrimos que o preço de uma ação não é um ponto único, mas um intervalo. Os corretores apresentam dois preços simultaneamente:

  • Bid (Oferta de compra): preço ao qual podemos vender as nossas ações
  • Ask (Oferta de venda): preço ao qual podemos comprar ações

A diferença entre ambos é conhecida como spread, que representa a comissão implícita do intermediário. Este conceito é essencial para entender como se calcula o preço real que pagamos ou recebemos em cada transação.

A capacidade de fixar preços: poder limitado

Uma questão lógica surge: podemos nós estabelecer o preço de uma ação que desejamos comprar ou vender?

Técnicamente sim, mas a realidade é mais restritiva. Se uma ação cotiza a 16 euros e nós oferecemos 34 euros, é pouco provável encontrar contraparte disposta a vender-nos ao preço que exigimos. Inversamente, se oferecemos 12 euros por uma ação que vale 16, os vendedores dificilmente aceitarão a nossa proposta.

O preço de uma ação atua como uma bússola que orienta as negociações. Desviar-se significativamente dele pode resultar em ordens não cumpridas ou situações comerciais inviáveis. Este mecanismo autorregulador é o que mantém a eficiência relativa dos mercados.

Liquidez: o fator decisivo na determinação do preço

A liquidez é o elemento que determina se o preço de uma ação se estabelece de forma transparente ou se nos encontramos perante anomalias do mercado. Quando o volume de negociação é baixo, podem ocorrer situações problemáticas:

  • As ordens não se cruzam e as transações não se executam
  • Vendedores com pretensões excessivas conseguem os seus objetivos
  • Compradores agressivos obtêm lucros injustificados por baixo volume

Ações como BBVA gozam de liquidez imediata, enquanto empresas médias enfrentam dificuldades para encontrar contrapartes. Em ativos mais sofisticados (private equity, dívida não cotada), a liquidez praticamente desaparece, o que faz com que o próprio conceito de “preço de mercado” se dilua.

Mercados primários vs. secundários: onde se calcula o preço

O preço de uma ação que observamos provém do mercado secundário. No mercado primário, as empresas emitem títulos ao público, e o dinheiro vai diretamente para o emitente. É um mercado de emissão onde se estabelecem preços iniciais.

Posteriormente, os investidores negociam esses títulos “usados” no mercado secundário, onde o preço de uma ação oscila segundo a oferta e procura reais, refletindo a avaliação que o mercado faz da empresa em cada momento.

Capitalização de mercado: a outra face da moeda

O preço de uma ação está indissociavelmente ligado à capitalização de mercado. Conhecer um permite calcular o outro. A capitalização representa o valor total que o mercado atribui à empresa completa.

Se uma empresa tem 100 milhões de ações e cada uma cotiza a 50 euros, a sua capitalização será de 5.000 milhões de euros. Este número, que pode parecer académico, tem profundas implicações para os investidores.

Três formas distintas de valorar: nominal, contabilística e de mercado

É crucial distinguir entre três valores diferentes que frequentemente se confundem:

Valor nominal: o preço de emissão inicial dividindo o capital social pelas ações emitidas. Serve como referência histórica, mas perde relevância rapidamente.

Valor líquido contabilístico: reflete o património líquido da empresa segundo os seus livros contabilísticos. Investidores focados em “value investing” utilizam-no como ferramenta para detectar oportunidades, assumindo que o tempo corrigirá as divergências do preço de mercado.

Valor de mercado: a confluência real entre forças compradoras e vendedoras. Quando ambas as forças são equivalentes, o preço estabiliza; quando uma domina, o preço move-se.

Eficiência questionável: bolhas e distorções

O preço de uma ação, embora funcione como mecanismo de descoberta de valor, está longe de ser perfeito. Muitas vezes, os preços afastam-se completamente da realidade empresarial, impulsionados por modas especulativas mais do que por fundamentos sólidos.

O caso de Terra em Espanha exemplifica esta distorção: cotou a 11,81 euros e em menos de um ano atingiu 157,60 euros, apenas para desaparecer anos depois após ser absorvida pela sua matriz. O preço tinha atingido alturas estratosféricas sem justificação real.

Gowex é outro caso icónico: apresentava-se como fornecedor mundial de Wi-Fi com resultados espetaculares. Quando análises externas revelaram o engano, o preço da ação colapsou. Centenas de milhares de investidores descobriram que o preço que viam na tela não refletia valor algum, mas pura ilusão coletiva.

Estes exemplos demonstram que o preço de uma ação pode afastar-se drasticamente do seu valor intrínseco, especialmente quando a especulação predomina sobre a análise fundamentalista.

Contexto atual: de growth a value

Nas últimas décadas, os preços de ações, particularmente em tecnologia e biotecnologia, foram impulsionados por modelos de crescimento futuro (growth). O dinheiro abundante dos bancos centrais alimentava preços baseados em promessas, não em resultados atuais.

Este paradigma está a reverter-se. O mercado procura agora empresas com fluxos de receita consistentes, despesas controladas e rentabilidade demonstrada. O preço de uma ação começa a refletir novamente fatores value: solidez financeira presente, não especulação sobre futuros lucros.

Conclusão: além do número na tela

O preço de uma ação é simultaneamente simples e complexo. Matematicamente, dividir capitalização entre ações em circulação dá a resposta. Economicamente, representa o consenso de milhões de participantes. Psicologicamente, reflete esperanças, medos e irracionalidades humanas.

Para investir corretamente, não basta conhecer a fórmula de cálculo. É essencial compreender que o preço de uma ação é dinâmico, que a liquidez é vital, que as bolhas são inevitáveis e que o tempo revela a verdadeira natureza das coisas. Só assim poderemos navegar pelos mercados com maior clareza e propósito.

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